quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


(António Gedeão)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Guerreira


Por vezes sinto-me guerreira, sinto que posso tudo, sinto que nada me vai deter, posso voar, ser anjo, ser deusa, tenho o mundo a meus pés e a coragem para seguir em frente contra tudo e contra todos.
Outras vezes, sou fraca, sinto que o mundo conspira contra mim, é a incertesa das incertesas, é um mar de angústia e dúvidas que me quebra e me desarma.

Isto leva-me a pensar, Qual o sentido das coisas? O que será que está certo? Será que vale a pena continuar?

O Amor é lindo e fortalece-nos, mas tem horas em que se assemelha a um mar, algo belo e caprichoso, algo que adoramos, mas que desde pequenos somos ensinados a respeitar. É uma entidade que tudo pode e que já defeniu o destino, de gente humilde, mas também de bravos e nobres exploradores. É algo que já foi desbravado, em tempos de descobertas, motivo de glórias e de derrotas, algo que na sua grandesa tem a capacidade de nos trazer a felicidade, e ao mesmo tempo de nos ceifar o destino com toda a sua imponência.

O Amor é assim:
Numa hora somos reis, noutra somos escravos.
Numa hora somos deuses, noutra somos crentes.

A vida, essa é assim, cheia de altos e baixos, por vezes condicionada pelo amor que nos move


(Xena)

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Imagino


Neste exacto momento
em que escrevo estas palavras,
é teu o meu pensamento,
embora tu não o saibas,
em que, num sorriso, recordo
o toque da tua pele
e imagino nos teus lábios
o mais puro e doce mel.

E imagino segredos
e histórias por revelar;
e com a ponta dos meus dedos
anseio em te tocar;
e num tom de voz baixinho
ao teu ouvido sussurrar,
enquanto te faço um carinho,
enquanto leio o teu olhar.

E, logo depois, lentamente
pegar na tua mão;
sentir nela, o teu corpo quente,
sentires nela o meu coração.

E depois suave e doce
afagar o teu cabelo,
como se um poema fosse,
como se pudesse eu escrevê-lo.

Imagino finalmente,
ou talvez seja um desejo,
abraçar-te ternamente,
enquanto provo o teu beijo.

(Xena)

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Eu sou a Concha das Praias


Eu sou a concha das praias
Que anda batida da onda
E, de vaga em outra vaga,
Não tem aonde se esconda.
Mas se um menino, da areia
A colher e a for guardar
No seio... ali adormece
E é ali seu descansar.
Pois sou a concha da praia
Que anda batida da onda...
Sê tu esse seio infante,
Aonde a triste se esconda!

Eu sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto,
Contando por suas dores
As areias do deserto.
Mas se um palmar, no horizonte,
Se vê, súbito, surgir,
Tem ali a tenda e a fonte
E é ali o seu dormir.
Pois sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto...
Sê tu sombra de palmeira,
Sê-me tenda no deserto!

Sou o peito sequioso
E o viúvo coração,
Que em vão chama, em vão procura
Outro peito, seu irmão.
Mas se avista, um dia, a alma
Por quem andou a chamar,
Tem ali ninho e ventura
E é ali o seu amar.
Pois sou quem anda chorando
À procura dum irmão...
Sê tu a alma que me fale,
Inda uma hora ao coração!
(Antero de Quental)

terça-feira, 19 de junho de 2007

Navio naufragado


Vinha de um mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.



É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.



Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.



E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Recordo-te


Homem bravo, lider, soldado da paz, cheio de vida e de luz.
Enchias tudo por onde passavas com a tua constante vontade de brincar, com o teu sorriso.
Eu na minha inocência de criança veneráva-te, orgulhava-me de ti (ainda me orgulho).

Mais tarde veio a doença, que te prendeu os movimentos, fez de ti um homem frágil, de olhar perdido no vazio, aí eu já não era tão criança, a inocência já havia sido quebrada. Mas continuavas a ser o meu orgulho, sempre foste.

Todos viam como a doença te envelheceu, mas eu continuava a olhar para ti como um astro, altivo e luminoso, sim porque mesmo muito doente, mesmo de olhar triste perdido no vazio, tu marcavas a tua presença.

Aí de alguma das tuas meninas que entrasse em casa sem te comprimentar, era como um ritual, custou a desabituar quando partiste.

Demonstravas o teu carinho por nós de uma forma singular, assim como cada uma no seu lugar, não é que gostasses menos de alguma! Mas sim que a forma de o demonstrares era diferente, de tal forma que todas ficamos com pedacinhos teus, só nossos.

A Rita na tua doença foi o ai jesus, a tua maior preocupação, aquela a quem só conseguiste ver o rosto uma vez, num contraste entre luz e sombra que ajudou os teus olhos cansados e doentes.

Avô hoje é aniversário do teu nascimento, e embora à 10 anos não seja motivo de comemoração, é um dia sempre recordado com muito carinho, saudade e emoção, porque tu continuas aqui bem presente nos nossos corações.
(Xena)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Saudade


- Bom dia Pai, como estás? Não respondes pai?
Faz neste instante cinco anos, que perante a mais crua e fria das realidades, foram as unicas palavras que consegui pronunciar.

Não gritei, nem chorei, apenas fiquei incrédula e queria a todo o custo uma resposta tua.

Insisti novamente.
- Pai por favor responde?
Mas cheguei tarde demais para obter qualquer resposta... O tempo já te tinha esfriado, os teus lábios não tinham cor, os teus olhos haviam perdido a expressão.

Mas porquê, meu deus? Porque teve que ser assim?

Naquele instante não gritei, mas hoje sinto um grito preso no meu peito, um grito de revolta.
Será que o meu destino era mesmo ser a ultima pessoa a fumar um cigarro na tua companhia?

Num dia em que não era previsto ir à tua casa, eu fui foi como se o destino me tivesse empurrado a ir lá. Para no fim do nosso cigarro, quando eu me preparava para ir embora, tu me pedires um abraço, foi um longo e terno abraço que sempre que me lembro é como se o sentisse outra vez, o nosso ultimo abraço, o ultimo beijo que te dei quando a tua face ainda era rubra, os teus lábios tinham cor, o teu olhar acusava uma alegria contagiante, como se estivesses a nascer de novo.

E era pai, era o teu renascer e o renascer de um relação cansada de desentendimentos que tivemos toda a vida.

Porque perdemos tantas horas com discussões, sem fundamento? Porque nos afastámos semanas a fio, apenas por orgulho? quando por vezes eu apenas queria dizer que tu eras o meu heroi, o meu idolo.

Porque me culpavas tu dos teus erros, quando eu te amava tanto.

Agora é tarde, tarde demais, mas eu sei que estejas onde estiveres, serás sempre o meu heroi.

Nunca vi a tua lápide, porque me angustia pensar que estás debaixo dela, mas a maior homenagem que te presto, é lembrar-te todos os dias da minha vida, tal e qual como se continuasses aqui.
(Xena)